quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Prêmio Marcantonio Vilaça - Funarte


Muxarabiê existente na casa de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera filho, na Cidade de Goiás, e que está na base da criação da minha instalação "Onde o tempo se bifurca", premiada pelo Prêmio Marcantonio Vilaça - Funarte.

A FUNARTE anunciou no dia 16 de novembro os quinze nomes contemplados com o Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça, que chega a sua segunda edição premiando artistas e instituições. O Prêmio que tem por objetivo contribuir com a formação dos acervos públicos e privados do Brasil, foi concedido a projetos de criações inéditas que devem ser executadas e incorporadas às coleções de museus ou centros culturais.

Por meio de um programa de democratização da cultura o Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça – Funarte contempla artistas e instituições de todas as regiões e concede a mais alta premiação em vigor no país: dez prêmios no valor de 90.000 reais cada e cinco prêmios no valor de 50.000 reais cada.

Meu projeto é um dos contemplados com a premiação máxima e pretende a criação da instalação de grande formato chamada “Onde o tempo se bifurca”, que será incorporada ao acervo do Museu de Arte de Goiânia (instituição que escolhi para receber a obra).


Desenho de Tosi Colombina datado de 1751. Primeira representação de Vila Boa - hoje Cidade de Goiás - mostra a existência de muitas janelas com rótulas nas casas da antiga cidade.

ARTISTAS PREMIADOS
Armando Sobral. Belém/ PA.
Bruno Ropelato. Florianópolis / SC.
Divino Sobral. Goiânia / GO.
Fernando Lindote. Joinville / SC.
Gabriela Machado. Rio de Janeiro / RJ
Jarbas Lopes. Rio de Janeiro / RJ.
Lauro Gontijo. Brasília / DF.
Luis Braga. Belém / PA.
Marcone Moreira. Belém/ PA.
Miguel Oswaldo Penha. Cuiabá / MT.
Rodrigo Braga. Recife / PE.
Roberto Moreira. Florianópolis / SC.
Yuri Firmeza e Pablo Lobato. Fortaleza / CE.

INSTITUIÇÕES PREMIADAS
Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Salvador / BA.
Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Niterói / RJ.

sábado, 24 de outubro de 2009

Recordações de uma paisagem não vista - Poema de Divino Sobral e vistas da exposição no Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri.


Remendar o mapa antigo de um local não visto;
Recuperar a cor de fotografias desbotadas e apagadas;
Restaurar cartas rotas, de papeis amarelados;
Recompor a palavra rasurada e as letras rabiscadas;
Retirar do esquecimento a paisagem
Daquilo que foi,
E que permanece
Perdido pelos cantos.

Depois,
Lembrar dos lugares que os olhos não viram,
Mas que os ouvidos ouviram.
Desdobrar calmamente os registros,
Cartografar a memória oxidada por
Dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos, milênios,
Sucessivos no tempo desde sempre e até o fim.

Paisagem enterrada que o esquecimento não apaga.


Recordações de uma paisagem não visitada.
Desenho do Araripe do Cariri do sul do Ceará.
Elevações de planalto e vales de chapada.
Lembranças sedimentadas em camadas minerais,
– Milhares de séculos antes do tempo humano
Inventar a cronologia do que não viveu.
Afloram na terra

Registros
Da paisagem que ninguém nunca viu,
E que outrora estava
Nesse lugar em que nunca estive.
Jardim fossilífero.


A pedra (sempre a pedra!)
Polida pelo passado tectônico,
Moradora autóctone,
Guardiã dos tempos imemoriais,
Protege em seu coração vida perpétua,
Fauna e flora petrificadas na plenitude do que foi,
Fossilizadas na plenitude do que é:
Pétrea eternidade, todas as dimensões do tempo.
Prolongamento da existência que rompe a duração,
E irrompe na dureza fria e na imobilidade seca
A imagem da vida dentro da morte.
Tecido fossilizado
Reveste a carne de quem sente na pele o arrepio do passado.
Recordações de uma paisagem não vista.


Retrato de Joaquim Romão Batista (pai de Padre Cícero) exposto na Casa/Museu Padre Cícero em Juazeiro do Norte. Sem que eu tivesse conhecimento da cor das paredes deste museu, criei minha instalação sobre uma parede azul; ao final estabeleceu-se um diálogo entre as duas situações expositivas. Foto: DS

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Recordaçõs de uma paisagem não vista - Texto de Daniela Labra


“O artista goiano Divino Sobral tem como principal característica de sua obra certa mescla entre o regional e o contemporâneo. Seus bordados, desenhos, esculturas, objetos e instalações, entre outras mídias, remetem a um Brasil de fábula arcaica que é ao mesmo tempo hiper-moderno, um Brasil que pode ser encontrado no Cariri e em São Paulo, simultaneamente. Suas histórias - como as que ele conta aqui - parecem dizer que é a cultura da grande metrópole que depende do interior para construir sua identidade. Por outro lado, ainda que possa parecer contradição, seu discurso estético não se aprisiona no que é regionalista, e traz no peito tanto o orgulho do pertencimento local como o de não pertencer a lugar algum.
Para esta exposição, Sobral desenvolveu desenhos a partir de relatos reais de cearenses residentes em Goiânia, que descreveram com nostalgia e certeza lugares que o artista desconhecia. Desse modo, foi pelo processo de executar retratos-falados da lembrança alheia que esta mostra feita de sonho surgiu.
Divino Sobral nos monta uma colcha de retalhos de memórias de terceiros, que por ele foram filtradas e interpretadas. Entretanto, como a arte não busca jamais impor uma verdade a seu público, a paisagem que vemos aqui tão pouco se pretende verdadeira, ainda que seja real neste lugar, neste momento. Recordações de uma paisagem não vista é sonho vivido. E também um pouco de saudade sonhada.”
Daniela Labra – Curadora

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Onde queima o lugar permanece






Onde queima o lugar permanece. Fotos de José Gomercindo documentam a execução da performance no Projeto de Residência Faxinal das Artes, na cidade paranaense de Faxinal do Céu.

A performance realizada em 2002 e vídeo realizado em 2008. O trabalho consiste na queima de imagens fotografadas em slides e projetadas sobre a parede externa de uma construção. As fotos documentam construções do interior goiano, e na obra duas imagens são superpostas numa mesma moldura para revelar uma terceira imagem, espectral, que traz algo do que foi; porém,o que agora é, de fato inexiste na realidade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Vídeo - O poeta e as pedras




Projeção do vídeo "O poeta e as pedras" sobre o edifício do Museu Nacional, durante a mostra SobreCidades, curada por Rodrigo Paglieri. Brasília, DF, 2009.


O vídeo com duração de 7 minutos foi finalizado em 2009, é um documentário da performance homônima que consiste na leitura de poemas sobre pedras num trajeto desenhado por ruas pavimentadas de pedras seculares na Cidade de Goiás. Direção e roteiro de Divino Sobral, Fotografia e edição de Pedro Diniz, produção executiva de Marcos Soares.

O vídeo foi mostrado primeiramente na mostra SobreCidades dedicada ao registro de trabalhos em contextos urbanos e que reuniu dezenas de obras projetadas sobre a fachada do Museu Nacional, obra de Oscar Niemeyer em Brasília.A segunda exibição ocorre na minha exposição "Recordações de uma paisagem não vista" no Centro Cultural Banco do Nordeste - Cariri.

domingo, 30 de agosto de 2009

Recordações de uma paisagem não vista


O Centro Cultural Banco do Nordeste – Cariri, em Juazeiro do Norte, Ceará, apresenta no período de 17 de outubro a 31 de dezembro de 2009, minha exposição individual “Recordações de uma paisagem não vista”. A curadoria é assinada por Daniela Labra, crítica chilena radicada no Rio de Janeiro.

Na exposição estão presentes duas obras recentes (instalação e vídeo) que pretendem dialogar com algumas características da paisagem geográfica, histórica, humana, literária e artística de Juazeiro do Norte, do Cariri, do Ceará e do Nordeste.

A instalação de grande formato chamada “Recordações de uma paisagem não vista” é concebida como livro de viajante, construído pela relação entre imagens e textos indiciando depoimentos, acontecimentos, personalidades, datas históricas, extratos de poemas, de romances e de letras de músicas, ilustrações nostálgicas e mapas, letras e palavras bordadas sobre 40 fronhas oxidadas que ocupam paredes pintadas de azul (a cor faz referência aos textos de José de Alencar e Patativa do Assaré). As fronhas soltas são como páginas avulsas de um livro desencadernado e o uso como suporte abre para conexões entre o sono, o sonho, os processos mentais noturnos de formação e desenvolvimento da memória. As memórias individual e coletiva se encontram por meio de conversas entre o artista e três pessoas de origem cearense que falaram sobre recordações, sobre a paisagem, a história, o passado, as lendas e os vultos do estado de origem. A instalação trata os estereótipos como representações emblemáticas ainda plenas de substância, como referentes clássicos para a reflexão contemporânea; subtrai dos clichês sua natureza estritamente regionalista e os atualizam em outros contextos em convivência com outras narrativas, visuais e verbais. Desde Frans Post, Antônio Conselheiro, Padre Cícero, Lampião, José de Alencar, Patativa do Assaré, Luiz Gonzaga, Euclides da Cunha, Rachel de Queiroz, Villa-Lobos e Antônio Bandeira, a obra alinhava narrativas e promove um encontro com a memória do nordeste e do Ceará por meio da sua produção cultural, da sua inserção na história brasileira.

Segunda obra apresentada, o vídeo “Os poetas e as pedras” é um documentário de sete minutos que registra minha performance usando um carro de som para a leitura de poemas de vinte e oito autores abordando a figura da pedra; a leitura é feita por um trajeto de ruas calçadas de pedras na Cidade de Goiás, a antiga capital goiana. As pedras poéticas trazidas pelo vídeo pretendem acordar no espectador a memória das pedras que contêm fósseis na Chapada do Araripe.

As duas obras, o vídeo e a instalação, colocam minhas preocupações com a estrutura conceitual do trabalho, com a incorporação do signo verbal e com o desenvolvimento de narrativas, com o uso de paisagens e histórias específicas aos locais onde desenvolvo meus trabalhos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Las Americas Latinas. Artigo de Laura Atie publicado na Art Key Magazine, Maio-jun, 2009. Milano.

In spagnolo il verbo querer – come esperar, verbo della speranza e (dunque) anche dell’attesa – abbraccia uno spettro lessicale esteso, dove ogni declinazione è legata alla stessa sfera significativa, sfumata nei propri limiti, ma iscritta nella messa in gioco totale della persona; quella della relazione: volere e più ancora desiderare e amare. I verbi più esigenti, quelli che implicano impegno, sacrificio, incontro e accoglienza, un lavoro continuo, impossibile da delegare o rimandare. Attuali, urgenti, ma proiettati nel futuro, pro-gettati nella costruzione. Come ad esempio la costruzione di una propria identità – plurale come l’universo. Inevitabile è la fatica.

Non è un caso che Philippe Daverio, curatore della mostra con la collaborazione di Elena Agudio e Jean Blanchaert, abbia scelto di valorizzare la pluralità per dare conto di un’America Latina come bacino di convergenza di culture straordinariamente ricche in virtù della loro differenza e originalità, che l’occhio eurocentrico non è esercitato a cogliere se non con la superficialità di uno sguardo sul tutto-identico nell’approssimazione (per difetto). Quell’occhio che con violenza aveva imposto la propria visione prospettica evangelizzando e conquistando i popoli indigeni, annientando le più antiche tradizioni precolombiane. Come spesso accade, è proprio dai conflitti e dalle repressioni che nascono le più forti pulsioni di riscatto, di affermazione della propria storia umana, appassionata volontà di testimonianza, denuncia, resistenza.

La mostra intende valorizzare – con un allestimento essenziale, senza altra presentazione (oltre i contributi di spessore in catalogo, bilingue, edito da Mazzotta) che non sia quella delle opere stesse, in modo da lasciare grande spazio all’interpretazione geografica-emotiva – proprio la molteplicità, mostrare gli intrecci culturali ed etnici, documentare le complesse realtà dove nessuno – finalmente – è assolutamente puro. Con un taglio che rimane, di fondo, politico; insiste Daverio su un’arte che rivendica da sempre un intervento sociale attivo, deciso e libero, segnata da una forte componente di ribellione, dall’aspirazione rivoluzionaria; un’arte ‘convinta di dover giocare un ruolo primariamente politico, di dover testimoniare, assecondare la passione dei priori intellettuali verso un dibattito perenne’.

Nonostante l’evidente impossibilità di considerare la produzione latinoamericana come un sistema artistico definito e coerente in se stesso, il carattere eterogeneo delle opere e delle numerose personalità artistiche (una cinquantina), non pregiudica la possibilità di seguire percorsi ben definiti di temi comuni e sentimenti consonanti tra natura e città, anima e morte e al tempo stesso di considerarne l’attualità di fatto – aiutati anche dagli incontri letterari con gli autori e alla rassegna cinematografica che rendono davvero globale questo omaggio volto al Sud del continente Americano.

Fotografia, pittura, installazioni e video: rappresentazione con ogni mezzo, dai grandi maestri epici come Diego Rivera, José Clemente Orozco, o rivoluzionari come Tina Modotti (Falce, martello e sombrero, 1928), a Rodriguez (Ritratto di Montezuma, XVIII sec.) ed anonimi di fine secolo XXI (gli Arcangeli ricchissimi, barocchi, della Scuola di Cuzco), fino alle voci contemporanee più giovani. In The Burden of Guilt (1997) Tania Bruguera si nutre di sangue animale, sacrificale, carne contro carne, corpo a corpo della vita con la morte, Ana Mendieta fotografa le sue performance, lasciando l’impronta del suo corpo – Veronica di sangue che scorre nelle vene aperte (1)– su un sudario, Artur Barrio fa della carne un libro. Il libro del corpo, su cui idealmente scorrono segni, si incidono i caratteri, sfilano ferite. Ivan Capote ci mette parte di un’esperienza più delicata, infantile: le sue cuffie auricolari sono conchiglie di mare – natura stereofonica, come il ritmo disteso di Cada Respiro (2003, 1’ 502) di Glenda Leon: la videocamera si allontana da un drappo fiorito che è l’abito di una ragazza allungata e sottile, sul quale cresce una margherita a ogni espirazione, mentre Ernesto Neto (Elas em transe, 2007) presenta una delle sue note installazioni lattiginose e sospese, Divino Sobral avvolge lana colorata su rami di legno per creare un nuovo giardino delle meraviglie (Garden of Jabuticabeiras, 2008). Alexandre Marucci moltiplica (Perimetro Antropofàgico, 2008) il ritratto di un’indigena impassibile, dal sorriso terribile quanto percettibile, nei luoghi più disparati, un aeroporto come davanti alla vetrina di Louis Vuitton o nella foresta incandescente. Liset Castillo torna a un tema caratterizzante della mitologia più antica, quello del labirinto, per raccontare la città: deserta, abbandonata, fantascientifica, extraterreste, quasi; non è rimasta che la terra al tramonto in Western Civilisation (2006). Un percorso che racconta infinite storie che mancano, forse, a rendere un immaginario superficiale e semplicistico una vera e propria riserva di tesori, dal potenziale ‘realmente magico’: idee, ideali, uto