
Remendar o mapa antigo de um local não visto;
Recuperar a cor de fotografias desbotadas e apagadas;
Restaurar cartas rotas, de papeis amarelados;
Recompor a palavra rasurada e as letras rabiscadas;
Retirar do esquecimento a paisagem
Daquilo que foi,
E que permanece
Perdido pelos cantos.
Depois,
Lembrar dos lugares que os olhos não viram,
Mas que os ouvidos ouviram.
Desdobrar calmamente os registros,
Cartografar a memória oxidada por
Dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos, milênios,
Sucessivos no tempo desde sempre e até o fim.
Paisagem enterrada que o esquecimento não apaga.

Recordações de uma paisagem não visitada.
Desenho do Araripe do Cariri do sul do Ceará.
Elevações de planalto e vales de chapada.
Lembranças sedimentadas em camadas minerais,
– Milhares de séculos antes do tempo humano
Inventar a cronologia do que não viveu.
Afloram na terra
Registros
Da paisagem que ninguém nunca viu,
E que outrora estava
Nesse lugar em que nunca estive.
Jardim fossilífero.

A pedra (sempre a pedra!)
Polida pelo passado tectônico,
Moradora autóctone,
Guardiã dos tempos imemoriais,
Protege em seu coração vida perpétua,
Fauna e flora petrificadas na plenitude do que foi,
Fossilizadas na plenitude do que é:
Pétrea eternidade, todas as dimensões do tempo.
Prolongamento da existência que rompe a duração,
E irrompe na dureza fria e na imobilidade seca
A imagem da vida dentro da morte.
Tecido fossilizado
Reveste a carne de quem sente na pele o arrepio do passado.
Recordações de uma paisagem não vista.

Retrato de Joaquim Romão Batista (pai de Padre Cícero) exposto na Casa/Museu Padre Cícero em Juazeiro do Norte. Sem que eu tivesse conhecimento da cor das paredes deste museu, criei minha instalação sobre uma parede azul; ao final estabeleceu-se um diálogo entre as duas situações expositivas. Foto: DS